VAI DAR CERTO

Publicado em 01/01/10 no Guia, em O Estado de S. Paulo

Hoje faz 10 anos do bug do milênio. O bug do milênio é parente do cometa Halley e do Kikos Marinhos: o fenômeno famoso que ninguém viu. Toda década tem um. O bug começou no momento em que falharam até na data, pois milênio, milênio mesmo, só em 2001. Mas o bug era para o 00. E foi tão sério, mas tão escabroso, que nem ele mesmo funcionou, como a cobra que some por comer o próprio rabo.

Ou então, ao contrário do que previam os especialistas, o bug não veio de uma vez só, com tudo dando errado já no primeiro segundo do ano 2000. Acho que veio (e ainda vem vindo) aos poucos, cuidando de cada área ao seu tempo. Os aviões que iam parar devido aos computadores de bordo confusos, pararam bem depois, na confusão dos controladores de voo — quando a Marta deu sábios conselhos ao povo brasileiro. Foi naquela frase, cuja perfeição só atende aos grandes vultos de visão, que eu identifiquei o bug. Deu bug na Marta. E alguns anos mais tarde, quando o Leham Brothers quebrou, no silêncio que se fez em meio aos escombros de fortunas era possível ouvir a risadinha do bug, que não vale um vintém.

O ano passado foi um festival. Deu bug no Belchior, na final da Copa das Confederações, no reapagão, no inglês do Joel Santana, na prova do Enem. Deu bug até na Vanuza! Aprecie a sofisticação do método: se em 2000 alguém propusesse que o bug do milênio afetaria o hino nacional, a Vanuza e o Youtube de uma vez, ninguém ia entender a conexão. Para começo de conversa, nem existia Youtube. E naquela época a Vanuza apenas começava a decorar o hino. Foram precisos 9 anos, e tudo não funcionou perfeitamente.

A cada ano que começa, compro um caderninho e anoto os outros sinais do bug que vão aparecer. 2010 vai ser um prato cheio, digno da data redonda: tem Copa do Mundo e eleição. Mas calma, que o ano só começa de verdade depois de fevereiro. O segredo é levar o bug para o carnaval, passear com ele pela orla do Rio, apresentar umas caipirinhas, descer para São Paulo atrás da perna de cabrito com batata e brócolis do Roperto, correr até Salvador pela lambreta e acarajé, depois ver o pôr-do-sol na Sé de Olinda, nos braços de uma morena de Jorge Amado. Pronto, o bug é brasileiro. O bug é nosso. O hexa é nosso. O pré-sal é nosso. O ano é nosso. A vez é nossa. Caro leitor, cara leitora: bem-vindos a 2010.

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